Muito debate, intervenções
acaloradas, participação popular e diversas demandas marcaram a plenária do
Fórum dos Movimentos Populares, na noite da última terça-feira, 25, que ocorreu
noInstituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS-UFRJ)no Largo de São Francisco, no centro
do Rio.
A reunião, que contou com
estudantes, trabalhadores, representantes de diversos movimentos sociais,
coletivos, grupos e partidos, definiu a pauta e os dias dos próximos
manifestos.
Os pontos principais da pauta são: tarifa zero
para o transporte público, desmilitarização da políciaeliberdade
aos manifestantes presos. As demais reivindicaçõespodem ser apresentadas durante os
protestos. A ação policial no Complexo da Maré, na última segunda-feira, 24,
que resultou em 9 mortos até o momento, foram repudiados veementemente.
Na quinta-feira, dia 27, a
concentração será na Candelária às 16h. Nodomingo,
dia 30,a mobilização partirá da
praça Saens Peña, na Tijuca, por volta das 15h, rumo ao Maracanã.
A internet mostrou do que é
capaz nos últimos dias. O potencial mobilizador das redes sociais foi explorado
de uma forma nunca antes vista na história deste país. Setores da mídia tiveram
que readaptar suas narrativas, já que suas palavras não exercem o mesmo efeito
de outrora na população. Isso ficou notório, por exemplo, quando José Luiz
Datena, da rede Band de televisão, mesmo alterando a enquente "você é a
favor dos protestos?" para "você é a favor dos protestos com
baderna?", não conseguiu conter o avanço do “sim”, que triplicou o número
de simpatizantes sobre o não. A crise, que assola a mídia tradicional e demite
centenas de profissionais a cada mês, ficou mais do que evidenciada nesse
processo.
Sobre o movimento
O movimento não teve cara, não
teve líderes figurões, não teve partido, tampouco foi fomentado – ou contido -
pela imprensa. Diferentemente do movimento dos caras pintadas, que pediu o
impeachment do, então presidente, Fernando Collor de Mello, esse guarda uma
espontaneidade incomum no histórico de mobilizações no país e natural de quem
vem sendo açoitado ano a ano, calado, aprisionado em suas aflições e ao ouvir,
a partir de uma brecha, o grito de indignação, que lhe é familiar e representa
a sua causa, bota o pé na porta e se junta à catarse coletiva. A gota d’água
foi o aumento na passagem de ônibus, estopim que rompeu a bolsa do comodismo e
fez com que cada canto do Brasil desse à luz a algo que já estava em gestação
há muito tempo. É o movimento do sentimento.
Por ser espontâneo, é difícil
de ser totalmente coeso em seus meios de representação. Mas esse, considerando
a grande multidão, manteve um comprometimento popular louvável. O uso da
violência, por uma pequena parcela de brasileiros, só dá subsídios àqueles que
querem manipular e desvirtuar o caráter do movimento. Mas, como disse, esse é o
movimento do sentimento. E, quando se trata do povo, em massa, reunido para
externar a sua opinião, para, de fato, se manifestar, trata-se também de algo que
abarca uma gama de posições, matizes e níveis de repúdio, descrédito, esperança
e estresse. Enfim, sentimentos. Pode
abarcar até os mal-intencionados, os oportunistas e os tendenciosamente
infiltrados (lembre-se do que aconteceu no Riocentro em 1981). O que não
podemos é substituir o todo pela parte.
O poder aquisitivo do
brasileiro aumentou? Aumentou. Entretanto, o povo, que agora pode adquirir
utensílios impensáveis em tempos de arrocho, vê o avanço dos preços, das
tarifas, da precariedade dos serviços públicos, dos abusos do Estado, do ataque
aos nossos direitos e da corrupção. São elementos suficientes para tirar
qualquer trabalhador honrado do sério, concorda? Esse mesmo povo que vive na
embalagem contraditória do primeiro mundo reivindica um conteúdo que faça jus
ao título propagandeado pelos governantes em suas campanhas publicitárias.
Ganhamos do Japão no futebol, no entanto, eles nos goleiam no que realmente
importa.
Para quem faz questão de
criticar a ação violenta - e criticável – de alguns brasileiros
Acho totalmente válido que
critiquem também a violência do Estado, que desabriga cidadãos, que atira
primeiro e só pergunta “quem é” depois, que desvia o nosso dinheiro e usa-o
como bem entende, que despeja uma fortuna absurda - reunida a partir do nosso
suor para manter o nome limpo na “praça” – em eventos que se resumem, no fundo,
a dois meses de pura ilusão –, que ignora veementemente e calhordamente abismos
e dilemas sociais gritantes e que não faz muita questão de esconder tais
práticas e ainda ri da nossa cara em rede nacional.
Sobre a ação policial
Não vivemos numa democracia
plena. A truculência policial, transmitida ao mundo, nas ações que tentaram
coibir os manifestantes no Rio e em São Paulo na semana passada, evidenciou
algo que alguns tentavam manter guardado na gaveta do esquecimento: a memória
da ditadura. Os resquícios das práticas da época da ditadura abriram uma
questão: estamos num processo de redemocratização que se estende desde o
governo Geisel. Não vivemos numa democracia plena. Precisou-se de uma
mobilização desse porte e, principalmente, durante um período de grande
exposição do país para que fossem reveladas essas feridas mal cicatrizadas.
Afinal, como cantava Cazuza, “meus inimigos estão no poder”. O triste é
constatar que, aos “inimigos” historicamente infamados, incorporaram-se os
traidores.
Sobre os políticos
Não tenho o que dizer além do
que já disse. Mesmo porque ninguém abriu a boca até agora. Não sei, mas acho
que temem algo. Quem sabe seja o povo? (até o fechamento deste artigo, nenhum político havia se pronunciado.)
Causas e efeitos
O problema não é de partido e
nem as reivindicações tem caráter partidário. O problema é de um conjunto de
práticas de um sistema que se perpetua há décadas. É o efeito de uma má
digestão do brasileiro com relação a toda podridão que vem sendo exibida há
anos como carne no açougue. Nosso dever é mostrar que não estamos dormindo no
ponto diante dos desmandos, independentemente de quem esteja no poder.
Não temos partidos. Temos
legendas que são trocadas de acordo com a conveniência do político. Poucos têm
comprometimento ideológico. A esmagadora maioria se conduz pelas cifras e pela
dança das cadeiras do poder. Discutir pessoas e partidos é inútil num sistema
corrompido. Conhece a história da erva daninha? O que nós precisamos discutir é
um país.
Algo muito importante pôde ser
assistido e vivenciado no dia 17 de junho de 2013. Eu não estou meramente contemplando um passado bem recente - e antologicamente presente no presente.
Estou vislumbrando o futuro. Momentos como esse não passam sem deixar marcas
históricas. Não sei o que vai acontecer. Ninguém sabe. Mas a cultura não é
estática. Ela incorpora, interage e/ou substitui elementos, anseios,
personagens, dilemas e representações. Ela está em constante transformação.
Transformação, muitas vezes, dolorida e conflitante. A única coisa que sei –
além do que já disse – é que a primeira coisa que me veio à lembrança no dia 17 de junho de 2013 foi
Chico Buarque cantarolando nos tenebrosos (porém, criativos) anos de 1970,
“amanhã vai ser outro dia”.
A minha fé renasce a partir dos sambas que vivo, que ouço e
que faço No samba não há
dogma e nem perseguição O samba é de todos os deuses e de nenhum É o amor, sem barreiras nem amarras, cantando por
si
E quando estou triste, entregando os pontos de tão
cabisbaixo, É no seu compasso que me refaço Mais forte, mais sensato, com uma paz sem dimensão Meu sacro-profano samba, nem sei o que seria de mim
sem ti
Por tantas já passei, e os bambas do céu e da terra
mal sabem As vidas que já salvaram com a sabedoria dos seus
versos E a exatidão dos acordes que parecem comuns
No entanto, dizem mais que sermões imersos Nas profundezas do ódio; nem mantras, tampouco
orações foram além Somente o samba tocou minh’alma e, com uma voz
materna...
Foi capaz de ensinar que esse coração não é reles, nem tão-somente mais um.
O ano, 1966. Mestres de duas
gerações da música popular brasileira reunidos no programa de Hebe Camargo na
TV Record. Dentre eles, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Donga e Chico Buarque.
Inegavelmente, a história da Hebe, que hoje nos deixou aos 83 anos, confunde-se não só com a da televisão.
Ela é um ícone da nossa cultura.
No tempo em que a qualidade de uma programação televisiva tinha um impacto
maior numa sociedade com o acesso mais limitado e menos seletivo, Hebe foi uma
fomentadora da nossa cultura, sempre buscando levar o que de melhor tínhamos
para abrilhantar o seu palco, já tão iluminado pelo seu inconfundível carisma.
A Rio+20 terminou com um consenso: de
que o que menos ocorreu foi consenso entre os líderes mundiais.
Poucos acordos fechados e muito disse-me-disse. Cada vez mais fica claro de que
a grande agente transformadora nesse processo é a sociedade.
Juntar um bando de tecnocratas tem tido pouco efeito prático. Cada um olha
apenas para o seu lado, priorizando os aspectos econômicos e políticos de ganhos a curto prazo.
O documento “final”
do evento parece uma colcha cheia de remendos. No frigir dos ovos, como muitos
já abordaram, o evento, realizado no Riocentro, foi decepcionante. Pareceu-me
mais algo feito por um país emergente para tentar impressionar outras nações e
fincar uma bandeira de protagonista no jogo político
internacional.
No entanto, a Rio+20
teve a sua importância
pelo que a norteou. Discussões, no seio da sociedade civil,
entre pessoas de outros estados e paises, exposições,
ações
culturais e protestos. A Cúpula dos Povos, o protesto contra a
mercantilização da vida e a exposição Humanidade 2012 foram alguns
dos pontos altos nesses dias em que a presidenta Dilma tentava dialogar com as
paredes.
Para quem pôde
acompanhar, pelo menos, uma das ações desse período,
fica o germe da conscientização. Ao visitar a Cúpula
dos Povos e a Humanidade 2012, carregado de ceticismo, vi meu pessimismo mudar
de humor ao ver a presença maciça de crianças e adolescentes que, curiosas,
faziam várias perguntas. Não deixam de ser sementes de esperança num meio tão
caótico.
Nossos políticos
sempre empurram com a barriga seus compromissos para o futuro com promessas
intermináveis. Transportar expectativas para as próximas
gerações
também éuma prática constante. E inevitável. Mas não podemos nos limitar a
isso. Pois as necessidades são imediatas. E não se trata de mero idealismo bucólico.
Até porque a questão é bem profunda e crítica:
a nossa sobrevivência.
51 instituições de ensino superior espalhadas pelo Brasil. Esse é o balanço da greve que ultrapassa os 20 dias. Há muito tempo não víamos uma paralisação dos professores federais, mas quem já passou por uma sabe bem: costuma durar muito tempo. Os estudantes da UFRJ, por exemplo, passaram quatro meses sem aula em 2001.
Alguns acharam a decisão precipitada, por não aguardar o término do período letivo. Porém, as reivindicações são legítimas como, por exemplo, um plano de carreira dividido em 13 níveis remuneratórios com variação de 5% entre eles a partir do piso para regime de 20 horas correspondente ao salário mínimo do Dieese (atualmente calculado em R$ 2.329,35), e percentuais de acréscimo relativos à titulação e ao regime de trabalho. Segundo a Associação dos Professores Universitários do Recôncavo (Apur), o panorama atual é desigual. “Tem profissionais com o mesmo cargo, exercendo as mesmas funções, mas com salários que variam em até 40% a mais. Isso, na nossa concepção, não deve existir”, destaca.
Nesse processo, um ponto tem chamado a minha atenção e o outro, causado o meu lamento. Comecemos com a pouca repercussão dada pelos telejornais ao fato. Não tenho acompanhado as publicações impressas, no entanto, tenho reparado a falta de aprofundamento num meio de comunicação de massa como a televisão. É fundamental que o povo conheça a causa e legitime-a. Mas parece que alguns não querem que isso aconteça. Afinal, parte da imprensa é um cardume de piranhas em busca da presa mais suculenta.
Será que os professores não são capazes de angariar em torno do seu ato uma popularidade semelhante à alcançada pelos bombeiros em 2011? O apoio foi notório, com o uso de faixas e de fitas vermelhas.
A partir dessa questão, chegamos ao segundo ponto que gostaria de levantar: a falta de integração quando os professores entram em greve. Sempre ouvi que para uma greve terminar logo, ela precisa nascer forte. Só assim, as autoridades sentiriam o drama e cederiam. Entretanto, no magistério, há uma barreira: a falta de coesão da classe. Um movimento que agregasse professores federais, estaduais e municipais enfrentaria a máquina do Estado com muito mais força e, se bem articulado, chegaria ao conhecimento da população de forma mais clara e eficiente. Ademais, revigoraria a luta dos profissionais das redes estaduais e municipais que, como no caso do Rio de Janeiro e das suas cidades, já começa enfraquecida e com o seu grito emudecido.
É triste ter que falar sobre a greve de uma classe essencial na construção de uma nação forte e consciente do seu papel. E não estou falando da pátria de chuteiras que apenas se aglomera para assistir à Copa do Mundo e torcer por feriados. Estou falando daquela que discute, dentre muitos assuntos importantes, os rumos de sua educação. Miremo-nos no exemplo do povo japonês. É dever de toda sociedade valorizar os seus professores.
Infelizmente, muitos, anestesiados por suas rotinas fatigantes, não param e se perguntam: “por que mostrar a mansão do Michel Teló quando há tanto a ser informado, explicado, debatido?”
Como temos poucos espaços na grande mídia para a aprofundarmos o tema, gostaria de deixar este à disposição. Pode parecer pouco. Pode realmente ser pouco. Contudo, precisamos aproveitar todas as brechas para bradarmos por mais sensatez. E a internet, se bem usada, pode ser uma poderosa ferramenta nesse sentido.
O deputado federal Stepan Nercessian (PPS-RJ) e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) pareciam relaxados nesse banho de cachoeira até que. . .
Por Carlos Pinho
Afinal, recordar é viver. . .
E a presença do bicheiro
Carlinhos Cachoeira em escândalos envolvendo nossos políticos está longe de ser
uma novidade.
Para refrescar a memória
do leitor, em 2004, o mesmo gravou e divulgou um vídeo no qual Waldomiro Diniz,
então assessor de José Dirceu, o ministro-chefe da Casa Civil na época, aparece
extorquindo o contraventor. A propina seria destinadaàs campanhas
eleitorais do Partido dos Trabalhadores e do Partido Socialista Brasileiro no
Rio de Janeiro. Por sua vez, Diniz garantia-lhe ajuda em concorrências públicas.
José Dirceu
O caso ganhou repercussão
internacional. Foi a primeira crise política do governo Lula. Dirceu perdeu
força, já que Waldomiro Diniz
era seu homem de confiança – seu amigo e assessor
direto entre os anos de 1992 e 2004. De certa forma, o caso foi abafado, o
tempo tratou de diluí-lo na lembrança popular e José Dirceu ganhou uma
sobrevida no cargo – até que o escândalo do Mensalão o derrubasse em 2005.
Waldomiro Diniz
O que há de mais estarrecedor
na relação do bicheiro com a política brasileira é o grande número de gente que
está saindo “molhada” a cada vez que uma manobra escusa ligadaà Cachoeira “deságua”
em investigações, na imprensa e na opinião pública.
Nesse mar de lama não há
qualquer tipo de discriminação. Essa cachoeira, que já afogou gente da situação,
agora inunda os gabinetes de membros do governo, aliados e opositores. Uma rede
de negociatas que possui, em sua pauta, os mesmos interesses desbaratados em
2004, dentre eles, o favorecimento em licitações públicas.
Segundo a revista Isto é, em conversas telefônicas, Cachoeira fala sobre contratos públicos em São Paulo nas gestões de Serra e Kassab.
Nessa enxurrada de acusações, a construtora
Delta está mergulhada até o pescoço. Ela seria a maior beneficiada nessa trama.
E, nadando ao encontro das suspeitas, não seria de se pasmar. Ela está presente
numa quantidade avassaladora de obras vinculadas a estados, a municípios e ao próprio
governo federal.
Sérgio Cabral faz a festa com os seus secretários e os diretores da Delta em Paris.
“Aqui come todo mundo, cara. Se não pagar pra todo mundo não funciona. Eu tô nisso há 16 anos!”, explica Lenine Araújo de Souza, o braço direito de Cachoeira, em diálogo gravado pela Polícia Federal.
Àqueles
que estão ilhados na desinformação, os nomes do senador Demóstenes Torres (DEM-GO),
do deputado federal Stepan Nercessian (PPS-RJ), dos governadores Agnelo
Queiroz (PT-DF), Marconi Perillo (PSDB-GO) e Sérgio Cabral
(PMDB-RJ), além de José Serra – quando prefeito de São Paulo –, se pesquisados
juntos ao de Carlinhos Cachoeira, dão um panorama da poluição existente da foz à nascente
do rio Brasil.
Carlinhos Cachoeira
Mas, que fique bem claro,
límpido e cristalino: estes são apenas alguns que figuram nessa cascata, que
nada tem de marolinha e que, para alguns, já se tornou um tsunami.
"Me sinto honrado por ter mudado a história do Samba".
(Thiaguinho)
Discordo da declaração do cantor Thiaguinho. Mas há uma questão a salientar. O Samba, como agregado cultural de valor inestimável na formação da identidade da nossa nação, não é algo estagnado ou uma moldura que devemos apenas contemplar. Ele, assim como a cultura num panorama mais amplo, está em transformação constante, com a inserção de novos elementos e a consequente diversificação do conceito.
Afinal, as pessoas não deixam de interagir (ainda mais hoje) e, a partir dessas relações sociais, aprender e assimilar outras culturas. Se o que resulta disso é tido como bom ou ruim pela crítica, é outro assunto. Nem tudo são flores no processo histórico.
Entretanto, Thiaguinho não mudou a história do Samba. Ele apenas bebe na fonte de uma tendência que vem desde a década de 1980 e que projetou conjuntos como Raça Negra, Razão Brasileira, Só Preto Sem Preconceito, Só pra Contrariar e o próprio Exaltasamba. Isso, em hipótese alguma, significa uma ameaça ao consagrado Samba de Raíz. Este, por sinal, é resultado de muita discussão e choque de estilos, formas e projetos. Os debates entre Donga e Ismael Silva exemplificaram bem esse cenário. Para o autor de “Pelo telefone”, Ismael fazia marcha. Este, por sua vez, dizia que Donga cantava maxixe. No vídeo abaixo, o autor de "Antonico" e "Se você jurar" relembra esse caso.
Esse embate teve um papel fundamental para legitimar a matriz da - como chama Nelson Sargento - instituição. Uma tradição que, posteriormente, foi enriquecida com nomes como Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Candeia, João Nogueira, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho e tantos outros, além de ter resultado em ramificações, tais quais a Bossa Nova, o Partido Alto, o Sambalanço (ou Sambarock) e o Pagode.
Um dos maiores intérpretes da música brasileira, o saudoso imperiano Roberto Ribeiro (1940-1996) reuniu nesse álbum, gravado pela EMI-Odeon em 1985, pérolas de um grupo seleto de bambas, tais como Monarco, Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz, Paulo César Pinheiro e Nei Lopes. Violão, cavaco, pandeiro, tamborim e a eterna voz do sambista convidam-nos a um legítimo mergulho no samba para pintarmos nossas almas atarefadas com os seus matizes mais singelos.
A faixa que dá nome ao disco, "Corrente de Aço", é do inigualável João Nogueira. O repertório também conta com a participação de Chico Buarque em sua obra "Quem te viu, quem te vê". Esta versão possui um diferencial para além da bela interpretação de Roberto e do dueto com o poeta dos olhos de ardósia. Na sua parte final, conduzida pela batucada, "Quem te viu, quem te vê" se entrelaça perfeitamente ao refrão de "A Banda", outro primor em versos e em melodia com a assinatura de Chico.
"Corrente de Aço" possui 12 faixas (disponíveis clicando aqui). Dentre elas, destaco a primeira, "Malandros Maneiros", de Nei Lopes e Zé Luiz do Império.
Trata-se de uma homenagem aos apontadores do jogo do bicho, os "malandros maneiros" que, como descreve a letra, "portando uma caneta, um bloco e uma folha preta, escreveram a sorte ou o azar de alguém". Seus versos formam também uma interessante crônica musical sobre o início da proibição dos jogos de azar durante o governo do marechal Eurico Gaspar Dutra (1946-1951).
Conta-se que a medida teria sido um pedido de sua esposa, Carmela Leite Dutra, popularmente conhecida como "Dona Santinha" por causa de seu catolicismo fervoroso. Com isso, em 30 de abril de 1946 - três meses após a sua posse -, Dutra proíbe a jogatina em todo o território nacional, como relata o samba:
No governo de marechal Dutra
Não teve nem truta, nem meu pé me dói E na guerra que houve aos cassinos
Parou Constantino e fechou Niterói
No entanto, a atividade manteve-se em pleno funcionamento durante décadas - na clandestinidade, bem verdade -, graças às vistas grossas de governantes, de políticos e de policiais, que, ao longo da história, "oficializaram" a ilegalidade à custa de muita grana.
No tempo da quinta coluna
De lá da Pavuna, Jacarepaguá. Eu me lembro que eu era menino
E no seu Natalino já ouvi falar
Citado no trecho acima, Natalino José do Nascimento, o Natal, foi o primeiro bicheiro a patrocinar uma escola de samba, no caso, a Portela, e participou da época de ouro da agremiação, que perdurou de 1941 até a década de 1960.
Se você não sabe (pois não consegue mais manter-se acordado vendo os "manos do Mano" em campo), a seleção brasileira jogou ontem e, numa atuação apagada, venceu a modesta seleção da Bósnia por 2 a 1. Em quase dois anos de trabalho, o técnico Mano Menezes ainda não encontrou a formação ideal da equipe que, em 2014, vai representar a CBF na Copa do Mundo, que será disputada no Brasil. Mas o tema deste artigo não está nas quatro linhas.
Há algumas semanas, o noticiário esportivo minimamente isento vem comentando o possível fim do ciclo de Ricardo Teixeira na presidência da Confederação Brasileira de Futebol. Sofrendo com a pressão política e com uma série de denúncias nas costas, o dirigente parece estar cada vez mais isolado e encurralado, esquivando-se de entrevistas e convocando reuniões extraordinárias com os presidentes das federações - que compõem a base da instituição - e com seus homens de confiança. Além de mandatário da CBF, ele também comanda o Comitê Organizador Local (COL), tendo o ex-jogador Ronaldo como seu escudo.
Dentro desse panorama conturbado, a corrente que defende a saída de Teixeira vem crescendo. No entanto, as dúvidas sobre os rumos da preparação do país para a maior competição entre seleções do planeta aumentam ainda mais. O deputado federal Romário é o principal crítico do dirigente. A presidenta Dilma Rousseff não quer vê-lo nem pintado de verde e amarelo. E, para piorar, a Fifa, por meio de seu mandatário, Joseph Blatter, também se colocou na linha de frente dessa oposição.
E para os clubes brasileiros, o que mudaria com a saída de Ricardo Teixeira? Se os seus próprios dirigentes não revirem alguns dos seus conceitos, nada.
É verdade que a gestão de boa parte dos nossos clubes melhorou nos últimos anos. Mas certos hábitos teimam em permanecer. As principais forças do nosso futebol não possuem autonomia diante da CBF. São dependentes política e financeiramente das suas benesses. Sempre que precisam colocar as contas em dia, seus dirigentes correm com o pires na mão até a porta da instituição, na ânsia de receber algum trocado adiantado. Ficam acuados e fragmentados quando negociam seus direitos de transmissão, baixando suas cabeças a um monopólio que lhes rende bem menos do que as marcas que "defendem" merecem.
Enquanto a mentalidade dos dirigentes não mudar, continua tudo na mesma. Os clubes precisam deixar de lado a rivalidade e focar num objetivo comum: a valorização dos nossos times. Alguns levantam a bandeira pela criação de uma liga, o que os fortaleceria. Entretanto, esse projeto já foi tentado, com a fundação do Clube dos Treze, e fracassou.
Infelizmente, os dirigentes da maioria dos clubes brasileiros não têm noção do peso das camisas que “representam”. Subvertem o seu valor e, em alguns casos, locupletam-se dele como bem entendem. Com isso, a especulada saída de Ricardo Teixeira não traz grandes esperanças. Quando só há bagunça e vício ao nosso redor, o horizonte é nebuloso.
Consagrado por sua participação no Show Opinião - que cantou, de 1964 a 1965, a crítica social e política no Brasil que vivenciava o início da repressão do regime militar - o sambista Zé Keti notabilizou-se também compondo marchas de carnaval.
Zé Keti e Nara Leão
Em 1967, quando a nostalgia dos festejos de outrora já fazia parte do imaginário popular e as tradicionais canções carnavalescas saíam de moda, “Máscara Negra”, de autoria dele em parceria com Hildebrando Matos, representou um marco. A marcha, gravada por Dalva de Oliveira, decantava o reencontro do Pierrô com sua amada Colombina. “No meio da multidão”, quem ficou para trás foi o Arlequim, chorando pelo amor daquela que já estava nos braços de outro. Segundo Zé Keti, a ideia surgiu de sua insatisfação com a lógica carnavalesca, que descrevia o Pierrô como um ser triste e desiludido por conta da paixão não correspondida pela Colombina, sempre envolta pelos carinhos do Arlequim.
Essa obra-prima faturou o 1º lugar no 1º Concurso de Músicas para o Carnaval daquele ano, organizado pelo Conselho Superior de MPB do Museu da Imagem e do Som (MIS). E foi mais longe, alcançando as paradas de sucesso da época, uma façanha em meio a força que a música estrangeira já exercia nos ouvidos tupiniquins.
Com a aclamação, veio também a polêmica. Deusdedith Pereira Matos, irmão de Hildebrando, entrou com processo judicial reivindicando a autoria da primeira parte da música. Com a morte de Hildebrando, Zé Keti teve de voltar aos tribunais, já que a família do co-autor alegava que a composição seria apenas dele. Além do sucesso e das brigas na Justiça, “Máscara Negra” também rendeu à Zé Keti um contrato como garoto propaganda da General Electric, que lançava um aparelho de TV “xará” da canção.
Primeiramente, que fique bem claro àqueles que gostam de atribuir a sujeira na polícia ao baixo salário concedido à categoria: corrupção não é um ato inerente à condição de trabalho. É uma falha moral. Até porque quem entrou para a corporação já sabia como a banda tocava por lá. Ademais, nossa classe política ganha muito bem, entretanto, goza de uma reputação tão limpa quanto o rio Tietê em dia de enchente.
O movimento grevista dos bombeiros e das polícias civil e militardo Rio de Janeiro está recebendo muitas críticas, mas a reivindicação deles é legítima. Por mais que esse ato configure crime militar. Na Revolta da Chibata (guardadas as devidas proporções, contextos e reivindicações), os marinheiros, liderados por João Cândido, também cometeram um crime para tornar público os seus anseios.
Como os policiais tocariam na ferida de sua desvalorização se ficassem esperando, acompanhados de Tinkiwinki, Dipsy, Lala, Po e do solzinho com rosto de criança, pela benevolência do poder público?
A priori, o governo deve buscar outras propostas - logicamente que inferiores - para, além de contornar a situação, ganhar dos manifestantes pela paciência. Nesse ínterim, também vai criar, através dos meios de comunicação, mecanismos para jogar a opinião pública contra o movimento. Será necessária muita sagacidade aos grevistas para que estes não coloquem os pés pelas mãos, como fizeram os baianos. A máquina estatal de manipulação das massas é pujante. Os manifestantes não ignoram esse fato. Sabem que já estão expostos a uma enxurrada de censuras. Mas as suas necessidades falam mais alto nesse momento. Quanto ao que acontecer nesse período de paralisação, os grevistas vão botar no colo do governador todos os acontecimentos que não encontrarem amparo policial. E a contrapartida virá, independentemente do descaso de Sérgio Cabral com a situação salarial que, por sinal, não é exclusividade dos atuais manifestantes, já que os médicos e, especialmente, os professores são profundamente afetados pelo desprezo do governo.
É notório que os policiais civis e militares tomaram as rédeas como protagonistas nesse episódio. Em 2011, os bombeiros se amotinaram por melhores salários e condições de trabalho e receberam amplo apoio popular. Será que a polícia desfruta desse mesmo prestígio para acender na população um suporte desse quilate?
Particularmente, considero esse estilo de greve improdutivo em termos práticos. Só serve para criar um desgaste e pender para as frentes políticas oportunistas que estão fomentando os setores envolvidos (afinal, vivemos em ano eleitoral). Precisamos repensar as formas convencionais de luta pelos nossos direitos. Esse movimento está fadado a ser vencido pelo cansaço e pela insatisfação de um povo acuado e já tão acossado por pilantras de terno e gravata que, com os seus sorrisos farsantes estampados em seus rostos besuntados de óleo de peroba, jogam o progresso de nossa sociedade nas costas de eventos que duram pouco mais de um mês e que dão lucro apenas para os seus patrocinadores privados. Seria mais válido se aqueles que são responsáveis pela segurança da população negassem-se a dar qualquer auxílio aos ocupantes de cargos ligados ao alto escalão dos três poderes. Não há maneira mais eficaz do que afetar diretamente aqueles que se consideram os donos do poder.
No entanto, é muito complicado quando, para tentarem valer os seus direitos, os grevistas montam estratégias de manifestação que acabam prejudicando quem mais necessita da ajuda deles. Ainda mais quando temos uma ligeira impressão de como essa história pode terminar.