Antes mesmo da chegada do rádio ao Brasil, o samba já era conhecido
e admirado, mesmo assim encontrava muita resistência em diversas
camadas da sociedade. Então como o samba e outras músicas populares
se tornavam conhecidas?
Primeiramente, como capital do Brasil, o Rio de Janeiro era palco de
diversas manifestações culturais e assumia o papel de propulsor dos
ritmos que vinham de todas as regiões do país e do mundo para se
tornarem gêneros musicais quando juntados a outros ritmos ou até
mesmo a outros instrumentos. O choro e o maxixe, por exemplo,
surgiram quase que na mesma época – na década de 70 do século
XIX – nascidos da variedade musical nacional. As reuniões entre os
músicos e a elite, também foram importantes para que as músicas
populares alcançassem todas as camadas sociais. Outro acontecimento
que tornava o samba conhecido era o fato dos nobres morarem em
regiões muito próximas dos pobres. A elite vivia no Centro, em
Botafogo e em São Cristóvão, já os pobres moravam na Praça Onze,
Santo Cristo, Estácio e Lapa. Esta proximidade facilitava políticos,
médicos, intelectuais e outros membros da elite a terem acesso à
cultura popular que nascia e se propagava nas proximidades humildes.
Outra forma de divulgação da música popular era a venda de músicas
com partituras
em papel impresso, já que o piano passou a ser integrante das salas
da classe média. Esta forma de divulgação se estendeu desde a
segunda metade do século XIX até as décadas de 1920 e 1930. O
teatro também era uma importante maneira de veiculação da música.
Era muito natural integrar uma música com uma peça teatral ou até
mesmo nas salas de cinema. Quando uma peça fazia sucesso, a música
certamente obtinha êxito.
Partitura do samba Pelo
Telefone.
No ano de 1902, quando foi gravado o primeiro disco no Rio, já
existia uma música urbana típica, além dos gêneros estrangeiros
que eram “abrasileirados” sendo adaptados pelos músicos
nacionais, como a valsa, a habanera e a polca. Até então o Brasil
não possuía uma identidade nacional e cultural. As músicas ainda
eram de alcance regional. Este panorama perdurou por alguns anos,
mesmo após a chegada do rádio.
Machado de Assis publicou na Gazeta de Notícias, em janeiro
de 1887, quadrinhas sobre o êxito da polca em território nacional e
o abrasileiramento do ritmo que viera da Europa.
O samba já era conhecido e consagrado na década de 1920, ainda sim,
sofria perseguições. O gênero musical já havia atravessado o
Atlântico diversas vezes, inclusive, Darius Milhaud, que defendia a
ideia dos modernistas, compôs diversas obras com ritmos brasileiros,
como o chorinho Deux poèmes tupis e o samba Le boeuf sur
le toit, lembrado por Donga, amigo de Milhaud, que serviu de
trilha sonora para um espetáculo de Jean Cocteau, “usando trechos
de dezenas de músicas cariocas que fizeram sucesso nos anos 10”
(Vianna, 1995: 104).
"Le boeuf sur
le toit", de Darius Milhaud
Ao mesmo tempo em que era tocado em grandes salões, o samba era
perseguido nas ruas. Por um lado, o grupo Os Oito Batutas,
formado basicamente por negros e mulatos, que tinha como integrantes
Pixinguinha, Donga, João Pernambuco entre outros, se apresentava no
Cine Odeon, no Theatro Municipal e no exterior. Por outro lado,
diversos sambistas como Heitor dos Prazeres eram presos acusados de
vagabundagem simplesmente por tocarem violão na rua.
Os Oito Batutas
No início da década de 1920 até meados dos anos 30, o samba ainda
era coisa de malandros e cantoria de vagabundos. Os sambistas estavam
sujeitos à prisão por tocar violão. A polícia pregava a ordem e
não dava trégua. Mas como Jota Efegê descreveu, o samba era
valente e não se deixava intimidar pela repressão, apesar de
espancados e presos por vagabundagem, os sambistas persistiam em
tocar onde quer que fosse. A solução encontrada por eles para fugir
da repressão foi subir para tocar samba nos morros, pois lá não
eram incomodados.
Os morros da Mangueira, do Estácio e do Salgueiro eram os principais
pontos de encontro dos sambistas que fugiam da violência policial.
Nas favelas o “samba do asfalto” se encontrava com o “samba do
morro”, e assim nasceria uma nova forma de tocar samba, que será
visto no capítulo mais adiante.
Nas andanças pelos bairros do Rio de Janeiro, Heitor dos Prazeres
foi o principal responsável por espalhar os sambas pelos bairros de
Madureira, Oswaldo Cruz, Olaria, Lapa, Estácio e Vila Isabel, onde
conheceria Noel Rosa, o maior sambista de todos os tempos e um dos
principais responsáveis pela volta do samba para os asfaltos.
O samba e o futebol - a ginga das rodas e os dribles nos campos
As perseguições aos negros, aos mestiços e aos mulatos, não eram
restritas somente no meio musical e social, o preconceito se estendia
também nos esportes, como é relatado no livro O Negro no futebol
brasileiro, de Mário Filho. A obra conta que no início, o
esporte bretão era praticado somente pela elite branca e os negros
eram proibidos de atuarem nas equipes.
Mario Filho
Mario Filho relata que negros e mulatos povoavam os locais de
concentração da elite brasileira e, aos poucos, foram conquistando
espaço nos grandes clubes, entretanto, não eram igualmente
tratados, pois não podiam encostar-se aos brancos durante as
partidas, além de receberem a culpa em caso de derrota e serem
severamente punidos. Assim nascia a habilidade incomum que
conquistaria o mundo. Os negros, mulatos e mestiços levavam para o
futebol de rua e de várzea, a ginga dos terreiros de samba, os
movimentos de capoeira, e reproduziam nos campos para evitar os
contatos com os brancos. As rígidas regras direcionadas aos negros,
mestiços e mulatos deram origem aos dribles que transformariam o
Brasil no País do Futebol.
Foi no Campeonato Sul-Americano de 1919 que nasceu o primeiro herói
do futebol brasileiro, o mulato Friedenreich1,
filho de um alemão com uma negra. Ele se tornou herói ao marcar o
gol do título brasileiro contra os uruguaios, que o apelidaram de
“El Tigre”, pela sua valentia demonstrada em campo. Mas foi
somente em 1923, que um clube com negros no time foi campeão,
abrindo as portas para que o futebol se tornasse multirracial. Na
ocasião, o Vasco da Gama foi campeão carioca com um time formado,
em sua maioria, por negros, mulatos e mestiços pobres e analfabetos.
Em 1926 seria a vez do São Cristóvão repetir o feito do Vasco e
sagrou-se campeão com um time miscigenado.
Friedenreich
Os heróis com a cara do povo brasileiro foram surgindo,
popularizando o futebol e encantando o mundo com a forma envolvente
de jogar. O negro Leônidas da Silva, o inventor da bicicleta, também
conhecido como Diamante Negro, se tornou o maior ídolo do futebol
dos anos de 1930 e 40, atuando por grandes clubes como o Flamengo,
São Paulo e Bonsucesso.
Leônidas da Silva
A forma original de jogar futebol dos negros, mestiços e mulatos
brasileiros, cheios de ginga e de malícia, rendeu um artigo
jornalístico elaborado por Gilberto Freyre, chamado “Foot-ball
mulato”. Feito após a boa participação do Brasil na Copa do
Mundo de 1938, realizada na França.
Um repórter me perguntou anteontem, o que eu achava
das admiráveis performances brasileiras nos campos de Strasburgo e
Bordeaux.
Respondi ao repórter que uma das condições de
nosso triunfo, este ano, me parecia á coragem, que afinal tivéramos
completa, de mandar à Europa um time fortemente afro-brasileiro.
Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem
brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros.
O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar
com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de
manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade
individual em que se exprime o mesmo mulatismo de Nilo Peçanha, que
foi até hoje a melhor afirmação na arte política.
Os nossos passes, os nossos pitu’s, os nossos
despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de
dança ou de capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar
futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses e por
outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir
de modo interessantíssimo para psicólogos e sociólogos o mulatismo
flamboyant e ao mesmo tempo o malandro que está hoje em tudo que é
afirmação verdadeira do Brasil. (Diário de Pernambuco, 17 de junho
de 1938).
Os negros, os mulatos e os mestiços passaram a ser figuras normais
no futebol e, até mesmo, idolatradas pelo povo e pela elite, que
parecia se esquecer do preconceito que tinham de suas raças. Aquele
preconceito de outrora não existia mais no mundo futebolístico,
pelo menos não declarados. Com a Segunda Guerra Mundial, houve anos
sem carnavais, mas os sambas e marchas eram produzidos com críticas
à Hitler e ao Nazismo. Nesta década o samba já estava consolidado
(entrarei neste ponto nos capítulos mais à frente). No futebol, a
Copa do Mundo foi interrompida em 1938, quando o Brasil teve uma bela
participação.
No ano de 1950, a Copa do Mundo foi realizada no Brasil, e a seleção,
bem miscigenada venceu o México, empatou com a Suíça e venceu a
Iugoslávia pela primeira fase. Na segunda fase venceu a Suécia e
venceu a Espanha, jogo marcado pelo fato de 200 mil pessoas cantarem
a marchinha Touradas em Madri,
de João de Barro.
Touradas em Madri,
de João de Barro, na voz de Carmen Miranda
Na final desta Copa, o Brasil foi derrotado, e novamente, a culpa
recaiu em cima dos três negros do time, o goleiro Barbosa, Bigode e
Juvenal. A derrota para o Uruguai trouxe de volta o racismo
adormecido durante anos. Mesmo sem acusá-los por causa da raça, o
povo brasileiro escolhera seus culpados, assim como o Jornal dos
Sports publicou em suas páginas de 22/07/1950.
Para vencer o Uruguai, foi isto que o match da
decisão mostrou, bastaria que Bigode não falhasse duas vezes.
Bastaria inclusive, que Bigode só falhasse num dos goals ou que
Barbosa, mesmo Bigode falhando, não falhasse num dos goals.
Bigode e Barbosa não falharam por falta de fibra.
Falharam porque sentiram demasiadamente a carga da responsabilidade
de dar ao Brasil o título de campeão do mundo. (Jornal
dos Sports, 22/07/1950: p. 5).
A Copa de 1958 revelou para o mundo o negro que se tornaria Rei. O
time com Zagallo, Bellini, Nilton Santos e Vavá, contava também com
os negros Pelé e Didi e o mulato Garrincha. Estes nomes deram outra
cara ao futebol brasileiro. O negro havia se consolidado no futebol
nacional e não havia mais nada a se provar.
Seleção brasileira campeã da Copa do Mundo de 1958.
1
Pixinguinha e Benedito Lacerda compuseram uma música chamada Um
a zero, em homenagem ao gol marcado por Friedenreich no
Sul-Americano de 1919. Foi a primeira obra que envolvia música e
futebol.
O negro, o mestiço e o mulato – Os primeiros passos da
identidade brasileira.
A Semana de Arte Moderna de 1922 reuniu escritores, pintores, músicos e intelectuais em defesa da cultura brasileira
No final do século XIX, intelectuais brasileiros debatiam sobre a
identidade nacional e o atraso brasileiro com relação à Europa. A pergunta era:
O que fazia o Brasil ser pior do que a Europa? A resposta mais sensata pareceu
ser a mestiçagem, que foi usada como bode expiatório. Os intelectuais da virada
do século XIX para o século XX olhavam com desprezo para as manifestações
culturais. Essa desvalorização daquilo que era brasileiro perdurou por muito
tempo, até surgirem os modernistas que defendiam o mulato e o mestiço como a
raça genuinamente brasileira.
A valorização do que é nacional foi a principal pauta da Semana de Arte
Moderna de 1922, ocorrida em São Paulo. Mario de Andrade, Oswald de Andrade,
Plínio Salgado, Heitor Villa-Lobos, Menotti Del Pichia, entre outros
modernistas, participaram do movimento que visava romper com a vanguarda
europeia, valorizando a cultura brasileira.
Gilberto Freyre
Mas a reviravolta começou mesmo com Gilberto Freyre, que valorizava o
caráter positivo do negro e do mestiço, definindo o povo brasileiro como uma
combinação harmoniosa e conflituosa de traços africanos, indígenas e
portugueses. Freyre mostrou que a cultura mestiça não era a causa do atraso do
país, mas sim algo que deveria ser cuidadosamente preservado, pois era a
identidade e a especificidade do país diante das outras nações.
Os modernistas que valorizavam a cultura nacional, eram os mesmos
presentes nas reuniões, como as citadas no capítulo anterior, que ocorriam
desde o século XVIII. Eram membros da elite, políticos, intelectuais e músicos.
Eles discutiam temas culturais e, faziam inclusive, saraus musicais. Uma dessas
reuniões está relatada no livro O
Mistério do Samba, de Hermano Vianna, no qual ele descreve o encontro de
Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Moraes Neto, Heitor
Villa-Lobos e outros intelectuais da época com Pixinguinha, Donga e Patrício
Teixeira, no ano de 1926. Gilberto Freyre publicou em seu diário, que mais tarde
seria parte do livro Tempo morto e outros
tempos, um trecho no qual se refere a este encontro.
Sérgio e
Prudente conhecem de fato literatura inglesa e moderna, além da francesa.
Ótimos. Com estes saí de noite boemiamente. Também com Villa-Lobos e Gallet.
Fomos juntos a uma noitada de violão, com alguma cachaça com os brasileiríssimos
Pixinguinha, Patrício, Donga (Vianna,
1995: 19).
Encontros como estes não eram novidades, mas foram destas reuniões que
partiram os primeiros passos para a valorização das coisas brasileiras, a
começar pela nossa raça e nossa música, ou seja, aquilo que nasceu nas terras
tupiniquins: o mestiço e o samba. Outros personagens importantes como Afonso
Arinos, Lima Barreto e Graça Aranha participaram do movimento de valorização daquilo
que era brasileiro, inclusive nomes internacionais tiveram importante
participação, caso do poeta francês Blaise Cendrars e do compositor suíço
Darius Milhaud.
Mais divertido do que "A Praça é Nossa",
mais engraçado do que "Zorra Total", mais comovente do que
"Criança Esperança", mais dinâmico do que "Domingão do
Faustão", mais legal do que "Programa do Gugu", mais carismático
do que a "Xuxa", mais polêmico do que "Big Brother Brasil", ele é
o... Dogcão
Para detalhar um pouco mais sobre o surgimento do samba como um ritmo
próprio, é necessário citar talvez a figura mais importante deste “nascimento”:
a casa da Tia Ciata.
Frequentada por Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô, Heitor dos
Prazeres, Hilário Jovino, Catulo da Paixão Cearense, entre tantos outros, a
casa da mãe-de-santo baiana, Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, situada
na Praça Onze, foi de suma importância para o surgimento do samba. Foi neste
endereço que ocorriam inúmeros saraus, nos quais diversos ritmos musicais de
todas as partes do país se juntavam. A união destes ritmos daria vida ao gênero
musical que mais tarde se tornaria símbolo da cultura brasileira.
Donga, Pixinguinha e João da Baiana
Nas reuniões nas casas das tias baianas, os ritmos brasileiros como
maxixe, modinha, cateretê, choro, lundu, jongo e marcha, se juntariam aos
cânticos e batucadas do candomblé para dar origem ao samba – que era uma palavra
já conhecida para definir uma reunião musical ou para identificar um tipo de
música e dança dos negros. Mas este “samba” ganhou um ritmo próprio,
característico, que o destacou de outros gêneros brasileiros.
Em novembro de 1916, o cantor Baiano, o mesmo que gravou o primeiro disco
nacional em 1902, gravou o samba Pelo
telefone[1], de
Donga e Mauro de Almeida. Somente a partir da gravação deste samba, que se deu
início a uma série de gravações de outras músicas denominadas como samba.
[1] O samba Pelo Telefone possui diversas versões,
pois muitos compositores exigiram a autoria desta música. Antes da gravação
desta música, houve outras gravações de samba, mas foram registradas como outro
ritmo.