quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma pitada de samba e um bocado de histórias

Episódio de hoje: 

O samba e o futebol - a ginga das rodas e os dribles nos campos

As perseguições aos negros, aos mestiços e aos mulatos, não eram restritas somente no meio musical e social, o preconceito se estendia também nos esportes, como é relatado no livro O Negro no futebol brasileiro, de Mário Filho. A obra conta que no início, o esporte bretão era praticado somente pela elite branca e os negros eram proibidos de atuarem nas equipes.

Mario Filho
  

Mario Filho relata que negros e mulatos povoavam os locais de concentração da elite brasileira e, aos poucos, foram conquistando espaço nos grandes clubes, entretanto, não eram igualmente tratados, pois não podiam encostar-se aos brancos durante as partidas, além de receberem a culpa em caso de derrota e serem severamente punidos. Assim nascia a habilidade incomum que conquistaria o mundo. Os negros, mulatos e mestiços levavam para o futebol de rua e de várzea, a ginga dos terreiros de samba, os movimentos de capoeira, e reproduziam nos campos para evitar os contatos com os brancos. As rígidas regras direcionadas aos negros, mestiços e mulatos deram origem aos dribles que transformariam o Brasil no País do Futebol.

Foi no Campeonato Sul-Americano de 1919 que nasceu o primeiro herói do futebol brasileiro, o mulato Friedenreich1, filho de um alemão com uma negra. Ele se tornou herói ao marcar o gol do título brasileiro contra os uruguaios, que o apelidaram de “El Tigre”, pela sua valentia demonstrada em campo. Mas foi somente em 1923, que um clube com negros no time foi campeão, abrindo as portas para que o futebol se tornasse multirracial. Na ocasião, o Vasco da Gama foi campeão carioca com um time formado, em sua maioria, por negros, mulatos e mestiços pobres e analfabetos. Em 1926 seria a vez do São Cristóvão repetir o feito do Vasco e sagrou-se campeão com um time miscigenado.

Friedenreich

Os heróis com a cara do povo brasileiro foram surgindo, popularizando o futebol e encantando o mundo com a forma envolvente de jogar. O negro Leônidas da Silva, o inventor da bicicleta, também conhecido como Diamante Negro, se tornou o maior ídolo do futebol dos anos de 1930 e 40, atuando por grandes clubes como o Flamengo, São Paulo e Bonsucesso.


Leônidas da Silva


A forma original de jogar futebol dos negros, mestiços e mulatos brasileiros, cheios de ginga e de malícia, rendeu um artigo jornalístico elaborado por Gilberto Freyre, chamado “Foot-ball mulato”. Feito após a boa participação do Brasil na Copa do Mundo de 1938, realizada na França.



Um repórter me perguntou anteontem, o que eu achava das admiráveis performances brasileiras nos campos de Strasburgo e Bordeaux.

Respondi ao repórter que uma das condições de nosso triunfo, este ano, me parecia á coragem, que afinal tivéramos completa, de mandar à Europa um time fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande número, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros.

O nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de Nilo Peçanha, que foi até hoje a melhor afirmação na arte política.

Os nossos passes, os nossos pitu’s, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou de capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses e por outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para psicólogos e sociólogos o mulatismo flamboyant e ao mesmo tempo o malandro que está hoje em tudo que é afirmação verdadeira do Brasil. (Diário de Pernambuco, 17 de junho de 1938).



Os negros, os mulatos e os mestiços passaram a ser figuras normais no futebol e, até mesmo, idolatradas pelo povo e pela elite, que parecia se esquecer do preconceito que tinham de suas raças. Aquele preconceito de outrora não existia mais no mundo futebolístico, pelo menos não declarados. Com a Segunda Guerra Mundial, houve anos sem carnavais, mas os sambas e marchas eram produzidos com críticas à Hitler e ao Nazismo. Nesta década o samba já estava consolidado (entrarei neste ponto nos capítulos mais à frente). No futebol, a Copa do Mundo foi interrompida em 1938, quando o Brasil teve uma bela participação.

No ano de 1950, a Copa do Mundo foi realizada no Brasil, e a seleção, bem miscigenada venceu o México, empatou com a Suíça e venceu a Iugoslávia pela primeira fase. Na segunda fase venceu a Suécia e venceu a Espanha, jogo marcado pelo fato de 200 mil pessoas cantarem a marchinha Touradas em Madri, de João de Barro.
Touradas em Madri, de João de Barro, na voz de Carmen Miranda

Na final desta Copa, o Brasil foi derrotado, e novamente, a culpa recaiu em cima dos três negros do time, o goleiro Barbosa, Bigode e Juvenal. A derrota para o Uruguai trouxe de volta o racismo adormecido durante anos. Mesmo sem acusá-los por causa da raça, o povo brasileiro escolhera seus culpados, assim como o Jornal dos Sports publicou em suas páginas de 22/07/1950.



Para vencer o Uruguai, foi isto que o match da decisão mostrou, bastaria que Bigode não falhasse duas vezes. Bastaria inclusive, que Bigode só falhasse num dos goals ou que Barbosa, mesmo Bigode falhando, não falhasse num dos goals.

Bigode e Barbosa não falharam por falta de fibra. Falharam porque sentiram demasiadamente a carga da responsabilidade de dar ao Brasil o título de campeão do mundo. (Jornal dos Sports, 22/07/1950: p. 5).



A Copa de 1958 revelou para o mundo o negro que se tornaria Rei. O time com Zagallo, Bellini, Nilton Santos e Vavá, contava também com os negros Pelé e Didi e o mulato Garrincha. Estes nomes deram outra cara ao futebol brasileiro. O negro havia se consolidado no futebol nacional e não havia mais nada a se provar.

Seleção brasileira campeã da Copa do Mundo de 1958.



1 Pixinguinha e Benedito Lacerda compuseram uma música chamada Um a zero, em homenagem ao gol marcado por Friedenreich no Sul-Americano de 1919. Foi a primeira obra que envolvia música e futebol.

Veja o episódio 1 em Os primeiros passos do Samba

Veja o episódio 2 em Tia Ciata

Veja o episódio 3 em O negro, o mestiço e o mulato

 



quarta-feira, 3 de abril de 2013

O super herói está ocupado

No caso de alguma ameaça nuclear é melhor chamar o Batman, o Super Homem, o Homem Aranha, Os Vingadores... eles não gostam de desenhar
Visite o blog do Dogcão!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Cidade das Flores

Foto Rodrigo Shampoo

Vou contar a história de um lugar
Onde todos os habitantes
Tinham motivo para se orgulhar
Em seus campos lindas flores
Era um parque de amores
Onde as pessoas só sorriam
E as crianças se divertiam
Imponentes florestas o cercavam
Suas faunas e floras ricas brilhavam
Era um lugar belo
Com mais de cem castelos
Todos lá se conheciam
Cristalinos riachos nele nasciam
Os ventos apenas arejavam
Enquanto ao seu ritmo
As folhas dançavam
Os pássaros coloridos gorjeavam
E seus tenros habitantes
Sorriam a cada instante
As montanhas encantavam
Àqueles que a olhavam
Mas chegou certo dia
Junto com uma nuvem fria
Um nobre forasteiro
Em seu cavalo prata
Que corria pela mata
Logo ele criou asas
E as pessoas se inquietaram
Ali na praça elas pararam
Era um misto de pavor e admiração
Ficaram paralisadas com o coração na mão
Logo o visitante se apresentou
"Sou um mágico trovador!"
Desceu de seu cavalo pulcro
E disse palavras calmas
Que purificavam a alma
Ele só queria lucro
Das suas mãos nascia a magia
Transformou uma rocha cinza em uma Bouvardia
Os olhos das pessoas transbordavam alegria
Com cinestesia
O mágico prosseguia seduzindo
Provocando um misto de entorpecimento e euforia
Se sentindo o dono de todos
O mágico continuava agindo
Logo ele fez um pedido
"Preciso de suas flores meus amigos!"
Todos da praça corriam
Para o visitante eles traziam
Quantas flores em suas mãos cabiam
As flores foram arrancadas dos canteiros
E quando acabaram as flores do campo inteiro
O mágico lhes pediu dinheiro
Os habitantes cativados
Entregou-lhe suas riquezas
Totalmente maravilhados
Uma orquídea foi erguida
E a cidade agradecida
Pela suntuosa exibição
Mas o mago insatisfeito
Achou-se no direito
De mandar na multidão
Exigiu o maior dos castelos
Construído em pedras preciosas
Pintado com as cores: verde e amarelo
Com duas torres esplendorosas
O mágico voltou-se para as mulheres
E escolhera a mais formosa
Para lavar os seus talheres
O lugar que era o paraíso
Ficou feio e destruído
Toda aquela qualidade
Se tornou iniquidade
As pessoas amarguradas
Estavam todas condenadas
Agora eram todos detentos
Homens fedidos e lazarentos
Sem voz para gritar
Não sobraram flores para contar
Toda aquela rica beleza
Virou história demudada em tristeza
A água límpida e cristalina
Era um poço de esgoto, carne podre e naftalina
Os habitantes se revoltaram
E o mágico eles expulsaram
Junto dele a inocente mulher
Que não teve culpa alguma
Mas foi tratada como uma vadia qualquer
O lugar belo renasceu
O campo seco e cinza floresceu
Assim como uma página de livro
O tempo passou
E certo dia
Aquele mágico voltou
As pessoas ignorantes se esqueceram do acontecido
E com os mesmos artifícios
Os habitantes ele conquistou
E, novamente...
Aquele campo florido acabou



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Samba, de todos os cantos, obrigado por enxugar meu pranto


Por Carlos Pinho.


A minha fé renasce a partir dos sambas que vivo, que ouço e que faço
No samba não há dogma e nem perseguição
O samba é de todos os deuses e de nenhum 
É o amor, sem barreiras nem amarras, cantando por si

E quando estou triste, entregando os pontos de tão cabisbaixo,
É no seu compasso que me refaço
Mais forte, mais sensato, com uma paz sem dimensão
Meu sacro-profano samba, nem sei o que seria de mim sem ti

Por tantas já passei, e os bambas do céu e da terra mal sabem 
As vidas que já salvaram com a sabedoria dos seus versos
E a exatidão dos acordes que parecem comuns

No entanto, dizem mais que sermões imersos
Nas profundezas do ódio; nem mantras, tampouco orações foram além
Somente o samba tocou minh’alma e, com uma voz materna... 

Foi capaz de ensinar que esse coração não é reles, 

nem tão-somente mais um.



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Do meu jeito

 
Quero cometer os meus erros
Ser apenas eu mesmo
Sem olhar para trás
Ignorando a sociedade
Quero andar sem rumo
Molhar-me na tempestade
Não quero explicar meus atos
Deixe-me tentar atravessar a parede
E quebrar a minha cara
Quero cometer os meus erros
Andar com as minhas próprias pernas
Questionar meus pensamentos
Sem lei e sem Deus
Para me julgar
Ou dizer o que é certo
Eu trilho meu caminho
Eu enfrento as consequências
Eu julgo meus atos
Quero cometer os meus erros
Aprendo a minha vida
Ensino a mim mesmo
Quero me queimar com o fogo que eu fiz
O meu céu é o seu inferno
O meu inferno é a sua casa
Nosso quintal é o universo
Eu quero começar pelo fim
Pintando os muros com o verde que não enxergo
Quero cometer os meus erros
As minhas limitações são sempre antes do meu fim
Quero sambar e ser feliz
Brincar de ser louco
Sonhar em ser eu mesmo
Diferente dos robôs à minha volta
Não sou mais uma peça na engrenagem
Sou a mola mestra
Do meu mundo
Quero cometer os meus erros
Faço minhas regras
Conquisto os meus objetivos
Enfrento tudo e todos
Liberto meu sorriso
Vou atrás das minhas respostas
Quero dormir acordado
Quero não dormir
E assistir o Sol nascer
Enquanto a Lua se esconde na sua escuridão
Quero cometer os meus erros
Quero fazer minhas perguntas
Entender porque a rosa é rosa
Assim ela é chamada
Vou mudar a cor do céu
Quero ver as minhas cores
E quebrar as suas regras
Pagar pelo que eu fiz
Fazer o que eu sempre quis
Quero cometer os meus erros
Assim eu sou feliz
Um eterno aprendiz
Um poeta sem chão
Eu vôo na minha imaginação
Quero comemorar todo dia dois
Amar várias vezes a mesma pessoa
Ser amado por uma pessoa
Sentir saudade de quem está ao meu lado
Quero cometer os meus erros

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

No Rules



Não quero regra.
Quero liberdade.
Quero tudo que agrega.
Quero a diversidade.

Não quero o que classifica.
Nem o que me limita.
Quero tudo aquilo que unifica.
E que ao máximo me permita.

Se existem limites, estão em nós mesmos.
Não em regras impostas sem questionamento.
Há possibilidades, basta abrirmos os olhos para as vermos.
E apreendermos o que nos é oferecido em cada momento.

Não quero as regras da monogamia.
Quero beijar a boca que eu desejar.
Tampouco quero as regras da poligamia.
Apenas não quero regras para amar.

Quero o que melhor me convir em cada situação.
Hoje sou de um jeito, amanhã já mudei.
A razão, acompanhando ou não o coração,
Importa-me mais sentir que pus alma em tudo que vivenciei.

Não quero as regras do dinheiro.
Quero a carteira no bolso
E o bom senso no corpo inteiro.
E, na privada, o que me for insosso.

Não quero as regras da menina comportada.
O que eu quero varia e dane-se quem não concorda.
Não sou marionete nem boneca empalhada.
A liberdade e a paixão é que me dão corda.

Não vou matar ou trair confiança.
Porque não quero suas consequências.
É com a vida que faço aliança.
Sigo o aprendizado das minhas vivências.

Não me imponha enunciados prescritivos.
Não quero regras mesquinhas e autoritárias.
Os limiares de minha vida são só por mim definidos.
Às vezes podem ser bem-vindas até atitudes contrárias.


"Mas sou minha, só minha e não de quem quiser..." (1° de julho, Legião Urbana)


"No Rules

Anything I wanna do - No rules!
I won't take no shit from you - No rules!
I don't care if you don't like me - No rules!
Do you think I really care? - Let's go!


C'mon lets go and start a riot - No rules!
I like to make noise, I hate to be quiet - No rules!
They can't tell me what to do - No rules!
'Cause I will never ever loose - Let's go!


No rules!
No rules!
No rules!
No rules!


Stand up and shout for what you want - No rules!
Don't give in until you won - No rules!
Never compromise your feelings - No Rules!
'Cause I got the right to show my feelings - Let's go!"
(G.G. Allin)







terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Uma pitada de samba e um bocado de histórias

Episódio de hoje:

O negro, o mestiço e o mulato – Os primeiros passos da identidade brasileira.

A Semana de Arte Moderna de 1922 reuniu  escritores, pintores, músicos e intelectuais em defesa da cultura brasileira



No final do século XIX, intelectuais brasileiros debatiam sobre a identidade nacional e o atraso brasileiro com relação à Europa. A pergunta era: O que fazia o Brasil ser pior do que a Europa? A resposta mais sensata pareceu ser a mestiçagem, que foi usada como bode expiatório. Os intelectuais da virada do século XIX para o século XX olhavam com desprezo para as manifestações culturais. Essa desvalorização daquilo que era brasileiro perdurou por muito tempo, até surgirem os modernistas que defendiam o mulato e o mestiço como a raça genuinamente brasileira.

A valorização do que é nacional foi a principal pauta da Semana de Arte Moderna de 1922, ocorrida em São Paulo. Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Heitor Villa-Lobos, Menotti Del Pichia, entre outros modernistas, participaram do movimento que visava romper com a vanguarda europeia, valorizando a cultura brasileira.

                                                   Gilberto Freyre



Mas a reviravolta começou mesmo com Gilberto Freyre, que valorizava o caráter positivo do negro e do mestiço, definindo o povo brasileiro como uma combinação harmoniosa e conflituosa de traços africanos, indígenas e portugueses. Freyre mostrou que a cultura mestiça não era a causa do atraso do país, mas sim algo que deveria ser cuidadosamente preservado, pois era a identidade e a especificidade do país diante das outras nações.
Os modernistas que valorizavam a cultura nacional, eram os mesmos presentes nas reuniões, como as citadas no capítulo anterior, que ocorriam desde o século XVIII. Eram membros da elite, políticos, intelectuais e músicos. Eles discutiam temas culturais e, faziam inclusive, saraus musicais. Uma dessas reuniões está relatada no livro O Mistério do Samba, de Hermano Vianna, no qual ele descreve o encontro de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Moraes Neto, Heitor Villa-Lobos e outros intelectuais da época com Pixinguinha, Donga e Patrício Teixeira, no ano de 1926. Gilberto Freyre publicou em seu diário, que mais tarde seria parte do livro Tempo morto e outros tempos, um trecho no qual se refere a este encontro.

Sérgio e Prudente conhecem de fato literatura inglesa e moderna, além da francesa. Ótimos. Com estes saí de noite boemiamente. Também com Villa-Lobos e Gallet. Fomos juntos a uma noitada de violão, com alguma cachaça com os brasileiríssimos Pixinguinha, Patrício, Donga (Vianna, 1995: 19).


Encontros como estes não eram novidades, mas foram destas reuniões que partiram os primeiros passos para a valorização das coisas brasileiras, a começar pela nossa raça e nossa música, ou seja, aquilo que nasceu nas terras tupiniquins: o mestiço e o samba. Outros personagens importantes como Afonso Arinos, Lima Barreto e Graça Aranha participaram do movimento de valorização daquilo que era brasileiro, inclusive nomes internacionais tiveram importante participação, caso do poeta francês Blaise Cendrars e do compositor suíço Darius Milhaud.


Veja o episódio 1 em Os primeiros passos do Samba

Veja o episódio 2 em Tia Ciata



 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Água mole, pedra dura... Tanto chove até que inunda!


Por Elis Bondim e Felipe Cavalcanti

            Mas afinal, estamos em terra firme ou em uma pequena ilha em meio ao oceano? Nosso estado, dentre outros no país, já é conhecido por suas chuvas no verão (principalmente), causando situações devastadoras. Devastadoras não por culpa da chuva, geralmente, mas por culpa da ação do próprio homem que constrói em demasia sem deixar para onde a água escoar e que gasta milhões (quando não bilhões), por exemplo, com eventos de grande porte como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, sem nem ao menos cuidar da infraestrutura básica do estado e da cidade. Se uma infraestrutura que dê conta melhor das chuvas é fundamental para a vida da população, é também muito importante para os turistas, para a imagem do país e para que não se destrua tudo que está sendo construído, seja para algum evento ou não. Ou seja, de todo modo, é contraditório não haver uma preocupação enorme do governo em torno dessa situação e uma pesquisa estratégica sobre como modificá-la.
            Na madrugada da última sexta-feira, do dia 17 para o dia 18 de janeiro de 2013, fui surpreendida por ruas alagadas em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro, vendo-me cercada pela água e demorando cerca de uma hora (ou mais) até encontrar um caminho viável para ir para casa. Estava eu a míseros dez minutos de casa e acabei tendo de dar uma volta enorme para nela chegar.  Essa tem sido a situação de diversas ruas do centro do Rio de Janeiro quando em grande temporal:





   
É interessante lembrar que muitas das obras que têm sido realizadas no Centro do Rio de Janeiro, tanto de revitalização quanto de infraestrutura básica, estão mexendo nas tubulações. Corre-se o risco de haver prejuízos para as próprias obras ainda em processo e também para as já finalizadas. Afinal, a chuva, sem ter para onde correr, traz prejuízos.

Lixo
Podemos perceber os bueiros entupidos de tanto lixo, problema que se agrava, principalmente, pela má educação dos moradores. Em noites de quinta-feira, sexta-feira e sábado, principalmente, quando a Lapa ferve, é fácil observar uma quantidade enorme de lixo nas ruas. Mas, independentemente dessas noites, o centro da cidade é conhecido por todos como um lugar não muito limpo. Atualmente, além de lixo nas ruas, observa-se uma quantidade de poeira absurda devido às obras. E nos perguntamos se isso não pode estar contribuindo de alguma forma também para os entupimentos dos bueiros.



 Justiça impediu obras de prevenção à chuva
Segundo link do portal Ig, http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/2013-01-03/antes-das-chuvas-rio-parou-na-justica-obras-de-prevencao-a-deslizamentos.html, o Governo do Estado teria entrado na Justiça “para parar obras de prevenção a escorregamentos”. Como diz o link, o “Estado pediu e presidente do TJ suspendeu trabalhos para evitar escorregamentos em áreas de alto risco nas regiões Metropolitana e Serrana”.
            Não é de se surpreender que grande parte do problema, causado por todos esses impactos socioambientais, borbulhe quando nos vemos inseridos em um planejamento (sim, um planejamento!) que visa apenas receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O qual, na busca de mitigar as demandas mais elementares da infraestrutura urbana, aparenta, ironicamente, ter como consequência inevitável a provocação de sucessivos vexames e risadas das organizações internacionais.
            Todavia, como se era de esperar, desde que a cidade maravilhosa se lançou ao mundo esportivo, reivindicando para si as atenções mundiais, de modo a barganhar o palco dos eventos – fato que está ocorrendo desde o Pan Americano de 2007 – as questões sociais gritantes tentaram ser abafadas mais rapidamente, como com a militarização das favelas, criando-se as UPP´s. Porém se por um lado muito investiram na questão da segurança – a qual, evidentemente, é de igual (se não maior) importância – pouco investiram em infraestrutura básica, como se pode perceber com as consequência das grandes chuvas nos últimos 4 anos. O fenômeno da chuva e suas flutuações são de ordem natural, já a consequência que se tem delas é, também, política, à medida que se investe no que se quer prioritário (e talvez a segurança fosse mesmo prioritária). Fazendo um mapeamento histórico dessas chuvas, deparar-nos-emos com um quadro revelador:

Xerém (Duque de Caxias) - 2013
No primeiro dia útil do ano, recém-saídos de uma comemoração universal ocidental – o réveillon – a população do Quarto Distrito de Duque de Caxias (Xerém) sofreu com um terrível alagamento, o que já vem sendo recorrente no verão fluminense e na abordagem midiática incessante. O desastre foi de tal escala que fez com que a comoção pública se mostrasse engajada, a exemplo do ponto de coleta de donativos que sempre vejo bem abastecido, na estação das barcas Araribóia. Todas as doações têm como objetivo suprir minimamente as necessidades mais básicas das famílias vítimas dessa última enchente emblemática que castigou Xerém.

Vale do Cuiabá, Teresópolis - 2011
Prova de que os fenômenos naturais extremos – até então chamados de excepcionais e que vêm ocorrendo em uma constância até agora insuficientemente explicada – não “escolhem” só áreas de baixa renda, a enchente no Vale do Cuiabá no ano de 2011 foi bem emblemática. Em manchete publicada pelo canal IG Rio, a 12 de janeiro do referido ano, tem-se a notícia de que a chuva causou a morte de quase uma dezena de familiares do executivo Erik Conolly, por exemplo, em Itaipava. Esta enchente ficou conhecida como o maior desastre natural que o país já conheceu. Se olharmos para o perfil das maiores vítimas, constata-se que há uma grande concentração nas classes médias altas. Quando olhamos para o espaço, constata-se que as áreas mais atingidas foram aquelas de expansão da especulação imobiliária, cujas construções comprometem a vegetação e o solo. Uma vez vinda a chuva daquela intensidade, que rapidamente atinge à rocha dura, tudo acima desliza como se água fosse graxa.

Morro do Bumba - 2010
O estado do Rio de Janeiro, além das áreas de risco de enchentes, também mostra a outra faceta do problema: a dos movimentos de massa. O sítio urbano combina formas variadas de baixadas e morros. Onde há morro de rocha sobreposta por uma camada de sedimentos, tudo vem a baixo. Caso do morro do Bumba: ainda que a rocha não se fizesse presente, toda a carga sedimentar foi carregada pela enxurrada. Como agravante, havia o funcionamento irregular de despejos de lixo por anos, e bastou a fatalidade ocorrer para que inúmeros especialistas viessem dizer, à época, que era uma tragédia anunciada. A comunidade localizada no município de Niterói teve, oficialmente, a perda de 267 vidas, segundo o portal de notícias da Terra. A favela que se formou em cima do depósito de lixo era sim um risco, negligenciado até as últimas consequências pela prefeitura. Além das chuvas, explosões também eram muito possíveis de ocorrer, dado a alta liberação de gás metano, altamente inflamável. Ambos os casos causaria os movimentos de massa, que de fato explodiram no referido ano.

“Terceiro mundo, se foi
Piada no exterior
Mas o Brasil vai fica rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos indios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?”
É A P**** DO BRASIL! 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

“Amor”, novo filme de Michael Haneke – Será que o amor acaba quando em situação limite?

   


Aviso: contém spoiler

            O novo filme de Michael Haneke, cuja pré-estreia na cidade do Rio de Janeiro se realizou sábado passado (dia 12 de janeiro) no cinema Odeon, e cuja estreia no país está prevista para a próxima sexta (18 de janeiro), tem espalhado sensibilidade pela crítica e dado o que falar.
            Ganhador do Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, o austríaco Michael Haneke aborda em seu filme a convivência de um casal aposentado, Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), que antes eram professores de música clássica. Certo dia Anne sofre uma espécie de derrame e passa a precisar de cuidados, os quais se tornam, com o passar do tempo, cada vez mais especiais. Georges, corajoso, enfrenta a situação sozinho praticamente até o fim, apesar de todas as dificuldades. Dificuldades geradas, no aspecto físico, pela sua idade e, no aspecto psicológico, pelo forte abalo emocional nele causado por ver situações demasiadamente tristes ocorrendo com sua mulher.  Anne, personagem triste, se vê cada vez mais dependente e, consequentemente, cada vez mais desejosa da morte.
            Através de um olhar extremamente realista sobre a chamada terceira idade, Haneke apresenta (e muitíssimo bem) um filme que fala sobre o que acontece em muitos lares de senhores idosos. E nos faz questionar: Georges enfrentar tudo praticamente sozinho é a maior prova de amor que ele poderia dar a Anne ou seria o que ocorre no final? Surpresa para todos que ainda não assistiram ao filme, o certo é que, em algum momento, Georges chega em seu limite e, o que por alguns pode ser visto como perda de controle, por outros pode ser compreendido como amor. E, inclusive, não só amor pela mulher, como também amor-próprio.
            Contenho-me aqui para não fazer mais spoiler, deixando claro que o filme é triste e maduro. Os protagonistas do filme são dois grandes atores do cinema francês: Emmanuelle Riva é a estrela de “Hiroshima, mon amour” e Jean-Louis Trintignant é o astro de clássicos modernos como “Um homem, uma mulher”.  A atuação de ambos é excelente, dando destaque a Emmanuelle, cuja atuação é brilhante, apresentando ao público uma atuação tão real quanto possível (lembrando que é a sua personagem que mais exige isso, portanto, Jean-Louis não fica para trás, apenas a dificuldade de seu personagem não nos parece ser a mesma). Emmanuelle merece todos os prêmios possíveis.
            O filme é uma coprodução de Áustria, França e Alemanha. Além do Globo de Ouro, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes (melhor filme), venceu o European Film Awards na categorias de ‘Melhor Filme’, ‘Diretor’, ‘Ator’ e ‘Atriz’ (além de outras duas indicações), dentre diversos outros. Concorre ainda ao BAFTA, considerado o Oscar inglês, nas categorias de melhor diretor, melhor atriz, melhor filme não-inglês e melhor roteiro original; a premiação ocorrerá dia 10 de fevereiro. Concorre também ao Oscar, inclusive nas categorias tanto de ‘Melhor filme em Língua Estrangeira’, representando a Áustria, quanto na categoria de ‘Melhor Filme’, o que é algo raro; além das categorias de ‘Diretor’, ‘Atriz’ e ‘Melhor Roteiro Original’.  A premiação do Oscar 2013 ocorrerá dia 24 de fevereiro.