domingo, 20 de janeiro de 2013

Água mole, pedra dura... Tanto chove até que inunda!


Por Elis Bondim e Felipe Cavalcanti

            Mas afinal, estamos em terra firme ou em uma pequena ilha em meio ao oceano? Nosso estado, dentre outros no país, já é conhecido por suas chuvas no verão (principalmente), causando situações devastadoras. Devastadoras não por culpa da chuva, geralmente, mas por culpa da ação do próprio homem que constrói em demasia sem deixar para onde a água escoar e que gasta milhões (quando não bilhões), por exemplo, com eventos de grande porte como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, sem nem ao menos cuidar da infraestrutura básica do estado e da cidade. Se uma infraestrutura que dê conta melhor das chuvas é fundamental para a vida da população, é também muito importante para os turistas, para a imagem do país e para que não se destrua tudo que está sendo construído, seja para algum evento ou não. Ou seja, de todo modo, é contraditório não haver uma preocupação enorme do governo em torno dessa situação e uma pesquisa estratégica sobre como modificá-la.
            Na madrugada da última sexta-feira, do dia 17 para o dia 18 de janeiro de 2013, fui surpreendida por ruas alagadas em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro, vendo-me cercada pela água e demorando cerca de uma hora (ou mais) até encontrar um caminho viável para ir para casa. Estava eu a míseros dez minutos de casa e acabei tendo de dar uma volta enorme para nela chegar.  Essa tem sido a situação de diversas ruas do centro do Rio de Janeiro quando em grande temporal:




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É interessante lembrar que muitas das obras que têm sido realizadas no Centro do Rio de Janeiro, tanto de revitalização quanto de infraestrutura básica, estão mexendo nas tubulações. Corre-se o risco de haver prejuízos para as próprias obras ainda em processo e também para as já finalizadas. Afinal, a chuva, sem ter para onde correr, traz prejuízos.

Lixo
Podemos perceber os bueiros entupidos de tanto lixo, problema que se agrava, principalmente, pela má educação dos moradores. Em noites de quinta-feira, sexta-feira e sábado, principalmente, quando a Lapa ferve, é fácil observar uma quantidade enorme de lixo nas ruas. Mas, independentemente dessas noites, o centro da cidade é conhecido por todos como um lugar não muito limpo. Atualmente, além de lixo nas ruas, observa-se uma quantidade de poeira absurda devido às obras. E nos perguntamos se isso não pode estar contribuindo de alguma forma também para os entupimentos dos bueiros.



 Justiça impediu obras de prevenção à chuva
Segundo link do portal Ig, http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/2013-01-03/antes-das-chuvas-rio-parou-na-justica-obras-de-prevencao-a-deslizamentos.html, o Governo do Estado teria entrado na Justiça “para parar obras de prevenção a escorregamentos”. Como diz o link, o “Estado pediu e presidente do TJ suspendeu trabalhos para evitar escorregamentos em áreas de alto risco nas regiões Metropolitana e Serrana”.
            Não é de se surpreender que grande parte do problema, causado por todos esses impactos socioambientais, borbulhe quando nos vemos inseridos em um planejamento (sim, um planejamento!) que visa apenas receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O qual, na busca de mitigar as demandas mais elementares da infraestrutura urbana, aparenta, ironicamente, ter como consequência inevitável a provocação de sucessivos vexames e risadas das organizações internacionais.
            Todavia, como se era de esperar, desde que a cidade maravilhosa se lançou ao mundo esportivo, reivindicando para si as atenções mundiais, de modo a barganhar o palco dos eventos – fato que está ocorrendo desde o Pan Americano de 2007 – as questões sociais gritantes tentaram ser abafadas mais rapidamente, como com a militarização das favelas, criando-se as UPP´s. Porém se por um lado muito investiram na questão da segurança – a qual, evidentemente, é de igual (se não maior) importância – pouco investiram em infraestrutura básica, como se pode perceber com as consequência das grandes chuvas nos últimos 4 anos. O fenômeno da chuva e suas flutuações são de ordem natural, já a consequência que se tem delas é, também, política, à medida que se investe no que se quer prioritário (e talvez a segurança fosse mesmo prioritária). Fazendo um mapeamento histórico dessas chuvas, deparar-nos-emos com um quadro revelador:

Xerém (Duque de Caxias) - 2013
No primeiro dia útil do ano, recém-saídos de uma comemoração universal ocidental – o réveillon – a população do Quarto Distrito de Duque de Caxias (Xerém) sofreu com um terrível alagamento, o que já vem sendo recorrente no verão fluminense e na abordagem midiática incessante. O desastre foi de tal escala que fez com que a comoção pública se mostrasse engajada, a exemplo do ponto de coleta de donativos que sempre vejo bem abastecido, na estação das barcas Araribóia. Todas as doações têm como objetivo suprir minimamente as necessidades mais básicas das famílias vítimas dessa última enchente emblemática que castigou Xerém.

Vale do Cuiabá, Teresópolis - 2011
Prova de que os fenômenos naturais extremos – até então chamados de excepcionais e que vêm ocorrendo em uma constância até agora insuficientemente explicada – não “escolhem” só áreas de baixa renda, a enchente no Vale do Cuiabá no ano de 2011 foi bem emblemática. Em manchete publicada pelo canal IG Rio, a 12 de janeiro do referido ano, tem-se a notícia de que a chuva causou a morte de quase uma dezena de familiares do executivo Erik Conolly, por exemplo, em Itaipava. Esta enchente ficou conhecida como o maior desastre natural que o país já conheceu. Se olharmos para o perfil das maiores vítimas, constata-se que há uma grande concentração nas classes médias altas. Quando olhamos para o espaço, constata-se que as áreas mais atingidas foram aquelas de expansão da especulação imobiliária, cujas construções comprometem a vegetação e o solo. Uma vez vinda a chuva daquela intensidade, que rapidamente atinge à rocha dura, tudo acima desliza como se água fosse graxa.

Morro do Bumba - 2010
O estado do Rio de Janeiro, além das áreas de risco de enchentes, também mostra a outra faceta do problema: a dos movimentos de massa. O sítio urbano combina formas variadas de baixadas e morros. Onde há morro de rocha sobreposta por uma camada de sedimentos, tudo vem a baixo. Caso do morro do Bumba: ainda que a rocha não se fizesse presente, toda a carga sedimentar foi carregada pela enxurrada. Como agravante, havia o funcionamento irregular de despejos de lixo por anos, e bastou a fatalidade ocorrer para que inúmeros especialistas viessem dizer, à época, que era uma tragédia anunciada. A comunidade localizada no município de Niterói teve, oficialmente, a perda de 267 vidas, segundo o portal de notícias da Terra. A favela que se formou em cima do depósito de lixo era sim um risco, negligenciado até as últimas consequências pela prefeitura. Além das chuvas, explosões também eram muito possíveis de ocorrer, dado a alta liberação de gás metano, altamente inflamável. Ambos os casos causaria os movimentos de massa, que de fato explodiram no referido ano.

“Terceiro mundo, se foi
Piada no exterior
Mas o Brasil vai fica rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos indios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?”
É A P**** DO BRASIL! 

3 comentários:

  1. Laerte certa vez fez uma tirinha ótima: as pessoas jogando lixo na rua, da janela de casa, da janela do carro, da janela do ônibus... depois, as águas chuva, não encontrando bueiros livres pra escorrer, inundam as ruas e trazem todo o lixo de volta... É um caso a pensar em primeira mão!

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  2. Todo ano é a mesma coisa, sabe-se de antemão das chuvas qie nos castigam e nada é feito para o contrário. Ja ouvi argumentos em defesa do atual prefeit dizendo que 4 anos é muito pouco tempo para se consertar anos de descaso, pera lá, 4 anos foi tempo o suficiente para ele transformar o Rio de Janeiro no maior canteiro de obras do Brasil, quiçá do mundo e, nenhuma dessas se mostrou eficaz, sendo apenas para embelezamento da cidade para "inglês ver". Outro problema é o "jeitinho malandro" do brasileiro, principalmente o carioca, que sempre arranja uma forma de burlar ainda que prejudicando terceiros, como foi o caso dos donativos a Teresópolis que sofreram desvios. A verdade é que poucos são os preocupados com isso, pois vamos viver de olimpiadas e futebol, né?
    A Thailandia é um lugar bem humilde e conseguiu se reestruturar depois do Tsunami. O Japão tbm já se reestruturou do furacão e nós? Ah, nós, nós sempre pedimos pra deixar pra amanhã!

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  3. Excelente! Inteligentes questionamentos a respeito de uma situação que acontece há muitos anos em vários municípios do Estado do Rio de Janeiro.

    É o tipo do texto que deve ser lido pelo Governador, pelos Prefeitos, vereadores, deputados, engenheiros civis etc e TAMBÉM pela população que faz questão absoluta de jogar lixo pelas ruas.

    Nesse último aspecto, a capital é realmente campeã, principalmente em toda a região central e bairros próximos. Uma sujeira absurda 24 horas por dia. Só mesmo vendo pra crer.

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